RODOVIÁRIA DE BRASÍLIA 

Joaquim Paiva

2021
176 páginas
Tamanho: 22x16,3 cm
Encadernação: Capa dura, cadernos costurados
Papel: Garda Pat Kiara
Tiragem: 200

Impressão: Indigo pela Ipsis Gráfica

 

A Rodoviária Plano Piloto fica no coração de Brasília, é por ali que circulam os passageiros que vão de um lugar a outro da cidade. Fiz estas fotografias entre 1981 e 1984, em minha segunda passagem pela jovem capital onde vivi por 20 anos, em quatro períodos. Rodoviária onde se comia pastel com caldo de cana. A cidade completara 21 anos. Eu passava de carro todo dia no meu caminho de casa para o trabalho, ida e volta. Ali, a cara do povo brasileiro, uma galeria de rostos e personagens.

Em várias imagens, aparece, ao longe, o Congresso Nacional, a “Casa do Povo”, habitada pela “elite” política deste país tão desigual, tão injusto com esse povo.
O Plano Piloto está tão associado ao poder político que o povo parece não fazer parte dele. Preferi fotografar as pessoas na rua e não a arquitetura arrojada, não a política.

Vejo a mulher de longos cabelos dourados atravessando o saguão ao entardecer, a moça de vestido branco se sentar antes de acender elegantemente um cigarro, o rapaz magro de camiseta vermelha Louco Amor, motoristas, engraxates, entregadores de jornal, os homens assistindo futebol num domingo à tarde, braços apoiados sobre o balcão da lanchonete, o ruído dos ônibus, dos carros, do vozerio, sotaques nordestino, mineiro, goiano – seria incrível se lembrasse pedaços de conversas –, as longas sombras dos passageiros nas filas, a mulher com bobs no cabelo para ondulá-los, o fotógrafo lambe-lambe onde fiz retratos para o passaporte. 

Como um filme um teatro uma performance um balé na rua, a fotografia é sempre documento ficção sonho mistério beleza. Ela fixa o que não se desvenda inteiramente, o culto o encantamento o tempo que passa. José Medeiros, o grande fotojornalista brasileiro, me disse: “O olhar é quem você é, de onde veio, como vê a vida. É a estação terminal.” 

Em 1981, recém-chegado depois de sete anos no Canadá e na Venezuela, eu estava na expectativa de reencontrar o Brasil. E, para mim, o lugar mais próximo do Brasil era a rodoviária.

Joaquim Paiva, 2021

The Bus Terminal is located in the heart of Brasilia, and it is crossed by passengers on their way from one place to another in the city. I took these photos between 1981 and 1984, my second sojourn in the new capital of Brazil, where I lived for 20 years in four different periods. The bus terminal where people ate fried pasties with sugarcane juice. The city had turned 21 years of age. I would go past it by car on my daily commute to and from work. There, the physiognomy of the Brazilian people, a veritable gallery of different faces and characters. 

In many of the photos, the National Congress can be seen from afar, the “House of the People”, inhabited by the political “elite” of this country so unequal, so lacking in justice for this very people. Brasilia is so strongly associated with political power that ordinary people do not seem to be part of it. I preferred to photograph the people in public spaces, not the bold architecture, not the politics. 

I can see the woman with the long golden hair in the late-afternoon light crossing the terminal, the woman in a long white dress sitting down before lighting a cigarette with consummate elegance, the thin boy with a red Crazy Love T-shirt, drivers, shoe-shiners, newspaper deliverers, men watching a soccer game on a Sunday afternoon, resting their elbows on the snack bar counter, the rumble of the buses, the cars, the chatter of voices, accents from the Northeast, Minas Gerais, Goiás – it would be amazing if I could remember the fragments of conversations –, the long shadows cast by passengers in line, the woman with curlers in her hair to make it wavy, the street photographers where I took my passport photos.

Like a film, a theater a performance an outdoor ballet, photography is always fiction dream mystery beauty. It sets what is not entirely revealed, worship enchantment passing time. The great Brazilian photojournalist José Medeiros once told me: “The gaze is who you are, where you come from, how you see life. It’s the terminal station”. 

In 1981, newly arrived after seven years in Canada and Venezuela, I was eager to reencounter Brazil. And for me, the closest place to Brazil was the Brasilia bus terminal.